A Loja de Antiguidades
Resolvi escrever este relato para você que chegou nesta sala pela primeira vez, espero que encontre no momento certo. Escrevo para evitar que você também enfrente dificuldades em entender o que se passa por aqui. Demorei uma eternidade para encontrar a resposta, e ainda não estou totalmente certo, mas sei que um pouco de informação é melhor do que nenhuma. Espero que você entenda que ler as próximas páginas não tomará seu tempo; pelo contrário, você é sortudo com a vida e o tempo em que nela está, o que lhe dá o poder de escolher suas prioridades. Portanto, não abandone estas páginas antes de eu terminar meu raciocínio. Dito isto, vamos ao que interessa.
Comecei a escrever quando meus pais se divorciaram e cada um escolheu outra pessoa para amar. Lembro-me de me sentir sozinho desde a primeira briga até hoje, quando imprimo estas palavras. Eu tinha apenas dez anos de idade. Uma criança não entende o conceito de solidão, mas consegue se virar com a imaginação que tem, evitando distúrbios maiores. Meu primeiro conto falava mais sobre meus pais do que sobre mim. Era como se eu estivesse na pele dos dois enquanto brigavam irracionalmente por meros caprichos de desejo. Como minha voz não tinha poder algum, o máximo que eu conseguia fazer era imaginar sermões e como tudo poderia ser melhor se um dos lados apenas cedesse um pouco. Também me lembro bem de escrever sobre as brigas e de me imaginar no meio delas, com duas mãos gigantes de barro separando-os como muros. A separação gerava saudade, e os dois sempre se viam no dever de procurar o amor perdido. Claro que isso não acontece na realidade, porque a vontade vale um centavo enquanto o orgulho vale dois bilhões.
Escrevia quando tinha carvão e algum pedaço de papel, mesmo que fossem embalagens ou jornais velhos. Até que conheci o senhor Moisés, que me trouxe alegria só porque podia.
— O que pensa que está fazendo aí, mexendo no meu lixo, garoto? — perguntou o senhor Moisés, ao me pegar no flagra.
— Eu só…
— Ah, então está à procura de carvão? — Ele percebeu que eu estava com as mãos sujas dos pedaços que havia encontrado no lixo.
— Eu só queria um pouco.
— O que você quer fazer com isso? Sabe escrever?
— Sei.
Meu pai havia me ensinado quando éramos uma família.
— Então por que não vem dar uma olhada aqui na minha loja? Tenho certeza de que vai gostar mais do que dos meus sacos de lixo.
Eu não sabia o que dizer, então apenas o segui para dentro. Foi a primeira vez que vi uma máquina de escrever na minha vida. Eu sabia que os escritores usavam uma forma estranha de imprimir palavras nos papéis, porque os livros não eram escritos à mão, mas não sabia que máquinas faziam aquele trabalho, desenhando letra por letra.
O senhor Moisés reparou que eu estava deslumbrado com tudo aquilo.
— O que escreve, garoto?
— Várias coisas. — Ele riu.
— Quero saber o gênero literário de suas obras.
— Obras? Gênero?
— Sim! Toda história é uma obra de arte, uma obra-prima que vai impactar a vida de alguém no futuro, seja qual for o tema. O gênero literário dirá a essa pessoa qual corredor buscar a obra.
Permaneci em silêncio.
— Veja só! Aqui nós temos o grande Sherlock Holmes, impressos nessas páginas. Os livros de Sir Arthur Conan Doyle são ficção, garoto. Outros autores escrevem romances, novelas, suspense, e até aqueles que gostam de terror. O que você escreve?
— Eu não sei dizer.
— Vamos fazer um teste, então. Venha cá. — O senhor Moisés preparou um banco alto para mim, em frente a uma mesa com uma de suas máquinas. — Quero que olhe para as letras em cada um desses botões. Cada pancada com o dedo fará um martelo carimbar uma letra neste papel. Deixe-me colocar o papel… só ajustar as margens… pronto! Quero que me escreva a história que vier à sua mente neste momento. Não se preocupe com as palavras, apenas faça. Já sou velho o bastante para me importar com palavrões ou coisas assim.
Olhei para a máquina e vi que tinha que fazer aquilo, mas minha paixão começou a florescer quando o barulho das teclas me mostrou que eu estava conseguindo. Tive dificuldades para entender a força que devia aplicar aos dedos e como posicioná-los, mas depois das três primeiras páginas, eu estava pegando o jeito. Escrevi tanto que não percebi o tempo passar.
— Vamos, garoto, a noite chegou e seus pais devem estar preocupados.
— Mas eu ainda não terminei! — exclamei atônito. Não queria perder aquela sensação.
— Amanhã estarei aqui, no mesmo lugar, e você pode concluir seu trabalho. Sempre que eu estiver aqui, é você quem operará esta máquina, combinado?
— Combinado!
Corri pelas ruas mais feliz do que nunca. Pulei poças, agradeci a estranhos, e brinquei com os mendigos que sempre me davam medo. Cheguei em casa louco para contar aos meus pais, mas eles estavam brigando outra vez e não perceberam minha ausência.
No dia seguinte, voltei para a loja do senhor Moisés, e repeti isso todos os dias da minha infância e adolescência. Ele me ensinou tudo sobre escrita, artes e máquinas de escrever. Não tinha filhos, parentes próximos, e sempre me chamava de “meu garoto”. Um dia, concluí meu primeiro romance, aspirando por esperança, e foi o primeiro dia em que o senhor Moisés me chamou pelo nome.
— Miguel… — Ele pausou por alguns segundos e começou a chorar.
— Senhor Moisés! O senhor está bem? — Corri até ele e o amparei pelo ombro.
— Miguel… este foi o romance mais lindo que já li em toda a minha vida.
Chorei como um bebê, mesmo já tendo completado dezoito anos de idade. O senhor Moisés me interrompeu e disse:
— Agora você está pronto para eu lhe mostrar o meu maior tesouro.
Fiquei surpreso de imediato, só pude ofegar, enxugando as lágrimas.
— Venha comigo.
Ele caminhou até a maior estante de livros da loja, uma que ficava bem escondida, com pouca iluminação, e eu sempre evitava limpar por lá para não ser surpreendido por aranhas.
— O que vou lhe mostrar é algo que ninguém deve conhecer jamais. Você nunca poderá mostrar a ninguém, porque as consequências serão inimagináveis. E sempre que tiver vontade de revelar este segredo, escreva. Me prometa que escreverá.
— Eu prometo.
Na época, eu não entendia a importância daquilo, mas concordei com tudo o que ele disse desde que o conheci. Não seria diferente naquele momento tão especial. Ele puxou um dos livros, e um painel metálico elétrico surgiu no buraco do livro. Ele retirou mais dois, e eu pude ver teclas numéricas abaixo de uma tela de luz vermelha. Em 1902, não havia tantos painéis eletrônicos daquela forma, e não havia portas automáticas movidas a energia elétrica, mas foi o que eu vi. Após um número ser escrito na tela, a estante inteira se moveu para frente, estragando o carpete. O caminho se abriu para uma escadaria longa, tão longa que os degraus finais não podiam ser vistos de cima.
— Quero que me prometa que não fará mau uso desse tesouro.
— Eu prometo.
Nós descemos. Luzes brancas se acendiam a cada cinco degraus. Não eram lâmpadas incandescentes. Quando chegamos ao final da escada, uma enorme sala foi iluminada em vários pontos. Lá, eu pude enxergar uma pequena biblioteca com duas estantes de largura média, de cinco prateleiras cada. As estantes tinham uma aparência futurista, como as lâmpadas brancas do local. Entre as duas estantes, havia uma escrivaninha branca com alguns papéis e uma máquina de escrever, cujo preto fosco de sua carcaça se destacava no ambiente branco.
— Que lugar é este? O que são estas luzes? — indaguei curioso, com muitas outras perguntas a seguir.
— Esta sala é o que me mantém vivo. No momento em que mostro ela a você, estou lhe entregando meu legado. Eu sou um escritor como você, Miguel, e quero que fique com esta sala, esta loja e, principalmente, esta máquina. Eu devo tudo a esta máquina.
A princípio, entendi suas palavras como um desabafo.
— Por que nunca me contou?
— Eu não podia.
— Por que não? Eu teria lido todos os seus livros.
— Não é assim que funciona. Você precisa encontrar o talento sozinho. Se eu lhe mostrasse minhas obras, você teria sido influenciado pelas minhas palavras, e eu não poderia lhe mostrar este lugar.
— O que tem de tão especial aqui?
— Quero que venha aqui amanhã e escreva. Escreva tudo o que vier à sua mente. E não se preocupe com o tempo.
Continuei sem entender o que ele queria me dizer, mas aceitei o término de nossa conversa quando ele me guiou para fora da sala. Tomamos uma xícara de chá, e eu assei seus biscoitos favoritos com um pouco de erva-doce. Esta foi a última noite em que conversei com o senhor Moisés.
No dia seguinte, cheguei à loja e um bilhete estava me esperando na minha máquina de escrever, em cima do balcão principal. Lá, ele me disse que precisou partir, mas estava muito feliz em me ter como sucessor. Deixou-me documentos que transferiam suas propriedades e dinheiro para mim.
Mais tarde, um advogado me surpreendeu na loja para oficializar a doação. Ele não conseguia me confirmar se meu amigo havia morrido ou algo parecido. O que suspeitamos é que ele estivesse doente e não quisesse me ver sofrendo, mas não podíamos confirmar com nenhum parente, pois não conhecíamos nenhum. Não abri a loja por uma semana inteira, procurando documentos que pudessem me dar uma pista. Não encontrei absolutamente nada. Senti vontade de chamar o advogado e tentar extrair alguma ideia mostrando a sala branca nos fundos, mas lembrei-me da promessa: eu deveria escrever todas as vezes que sentisse essa vontade de revelar o segredo. Foi o que fiz.
Eu não conhecia a tal sequência numérica da porta, mas ele havia colado um papel bem ao lado. Arranquei e o pus no bolso. Na sala branca, meus olhos estavam se acostumando à iluminação forte. Reparei que as estantes não continham livros comuns; eram manuscritos sem assinatura. Pensei em lê-los, mas tinha que escrever primeiro. Sentei-me diante da máquina de escrever e busquei uns papéis brancos, bem cortados, que estavam guardados ao lado da escrivaninha, numa caixa vermelha. Comecei uma história diferente desta vez, em que um jovem perde o melhor amigo e segue numa aventura fantasiosa até reencontrá-lo. Levei horas escrevendo os detalhes que achei inovadores para nossa literatura, mas não percebi o tempo passar porque as luzes e a falta de janelas não me deixavam saber se já era noite. Empolguei-me com isso e, pela primeira vez, pude terminar um livro em um único dia.
Peguei o miolo impresso e sentei-me ao chão, encostado a uma das estantes. Reli com uma curiosidade incrível e me senti muito feliz com a imaginação que me levou a vislumbrar monstros e desafios em uma densa floresta negra. Queria muito mostrar ao senhor Moisés, então, num impulso automático, corri para a escada e parei no segundo degrau. “Ele não está mais aqui…”
Voltei à loja e caminhei até o balcão. Reabasteci com óleo todas as lâmpadas que haviam se apagado na loja e tentei descobrir que horas eram, mas o relógio antiquado estava parado. Fui para a rua e tomei o maior susto da minha vida. A cidade havia desaparecido e, no lugar, estava uma floresta escura, como na minha história. Andei devagar pelos caminhos de terra, sempre garantindo a visão da loja ao olhar para trás. Não havia mais nada. Apenas árvores e barulhos de animais noturnos.
Voltei para a loja correndo após ouvir o sibilar de uma cobra. Lembrei-me de tudo o que o senhor Moisés me disse e só relacionei com a sala branca. Voltei para lá e escrevi um pouco mais. Desta vez, imaginei um ambiente futurista, como as lâmpadas brancas da sala. Quando saí da loja, estava em uma cidade completamente diferente. À minha frente, dois prédios enormes exibiam sua estrutura ao arranhar os céus. Carros arredondados, com formatos de cabeças de animais, passavam rapidamente pela rua, como se fossem trens a vapor, mais velozes que um trem. Fiquei com medo das roupas vulgares que vi nas mulheres dessa rua e voltei para me recompor. Eu não conseguia entender aquilo.
A princípio, pensei que minhas histórias estavam se tornando realidade, mas eu não colocava elementos suficientes para civilizações evoluírem. Depois, imaginei que eu estava enlouquecendo e tendo alucinações muito reais devido à perda. Tentei dormir, mas nada voltou a ser como era antes. Voltei e escrevi novamente. Desta vez, apenas um conto bobo. Ao sair da loja, tudo estava diferente. Os prédios estavam sendo construídos e os carros não passavam tão rápido, porque as estradas tinham pedras muito grandes sendo separadas para ladrilhar.
Escrevi mais um conto e vi que os prédios não existiam mais. Tudo o que eu via à minha frente era um lugar vazio, com vários fragmentos de lixo metálico, alguns até brilhando e abrindo um prisma de cores amedrontadoras. Com o tempo, comecei a me desesperar sem conseguir entender o que estava acontecendo, e não sabia como voltar para casa. Foi quando decidi tentar outras coisas, mas esse efeito mágico só acontecia quando eu terminava uma história por completo. Então, reorganizei os espaços das estantes e liberei metade de uma para guardar minhas histórias, e continuei a escrever.
Um dia, acordei diferente. Lembrei de vários ensinamentos que o senhor Moisés havia me passado, e um deles era que eu podia encontrar a felicidade até nas mais terríveis atrocidades. Isso porque o humor pode ser usado para afogar as mágoas mais do que as bebidas e as mulheres. Em um de seus contos, o protagonista aceita suas condições precárias e apenas sai para viver. Foi o que fiz. Saí da loja e caminhei pela cidade com carros velozes. Encontrei muita coisa diferente. Comidas rápidas, de gosto bom. Bebidas geladas demais, mas prontas em garrafas de remédio. Visitei circos que não tinham animais, museus que mostravam máquinas de escrever como antiguidades. E conheci Olívia.
Amei. Amei como amei meus livros e minhas máquinas de escrever. Amei Olívia como se ama o amanhecer e o crepúsculo que lhe entrega a hora de descansar. Por Olívia, parei de escrever no quarto branco. Deixei de lado a escrita para me dedicar a construir o nosso ninho. Aprendi a viver naquele mundo diferente e conheci várias tecnologias estranhas que eram muito úteis quando compreendidas. Até que descobri, em um momento muito tardio, que perderia meu amor por uma doença que não existia no meu mundo. Não pude fazer nada, pois a surpresa me derrubou num golpe só. Envelhecemos juntos, mas nunca imaginamos que o fim viria num clarão.
Tudo o que me restou foi me sentar em frente à minha velha máquina de escrever e derramar as palavras como rios de lágrimas caminhando para encerrar a vida em uma cachoeira. Foi quando me lembrei da sala branca. Eu a havia abandonado por tanto tempo que me esqueci de seus poderes. Pensei que poderia trazer Olívia de volta escrevendo mais e mais. Desci rapidamente, retirei todos os manuscritos das estantes e os levei para a loja. Coloquei várias caixas de papéis ao lado da máquina de escrever e comecei o trabalho. Escrevi por muitos dias, parando apenas para comer. Todas as tentativas me levavam a um lugar diferente, mas eu precisava encontrá-la.
Até que um dia, desanimado e exausto, voltei para o meu mundo. Não aquele em que vivi com Olívia, mas o mundo em que nasci. Tinha certeza de que estava de volta à mesma rua, com o mesmo cheiro. Tive um sentimento de nostalgia que quase me derrubou em lágrimas. Meus cabelos grisalhos e minha barba longa denunciavam meus problemas. Caminhei pelas ruas até a casa de meus pais. Certamente não veria ninguém, mas gostaria de encontrar suas lápides no quintal. Não encontrei ninguém em casa, mas não havia lápides como eu esperava. Voltei para a loja e, ao entrar, reparei num garoto vasculhando alguns sacos de lixo. No mesmo momento, um filme passou pela minha mente e soube exatamente o que fazer.
— O que pensa que está fazendo aí, mexendo no meu lixo, garoto? — perguntei.
Conversamos por várias horas e, enquanto ele escrevia na minha máquina do balcão principal, perguntei o seu nome:
— Como se chama, garoto?
— Miguel! E o senhor?
Sorri com lágrimas nos olhos ao perceber que não poderia contar a verdade.
— Moisés.
Ajudei-o a trilhar o seu caminho, tentando deixá-lo livre para uma nova trajetória, até que chegou o momento em que eu deveria partir para encontrar minha Olívia. Ele já havia crescido e tinha tudo o que precisava para viver uma boa vida. Entreguei meus segredos e voltei para a máquina da sala branca. Depois de encontrar minha Olívia, reparei que não era mais o meu tempo de viver. Ela estava feliz com meu eu de outro tempo.
Se você está lendo isso agora, pode ser que seja um eu de outro tempo e que passará deste momento. Espero que viva sabiamente e aproveite o tempo que lhe resta, pois para mim não me resta mais tempo.