Águas Cinzentas

CHBLACKSMITH


A manhã estava cinzenta. Cabeças surgiam nas ruas, e as janelas se enchiam de pessoas curiosas. A maioria dos olhares carregava um certo espanto, mas eram claramente atraídos pelo fenômeno no céu. As nuvens negras de chuva se uniam em uma só massa. Nem mesmo as sombras das pessoas eram perceptíveis. Minha visão, porém, estava curiosamente clara, exceto por uma leve pressão incômoda no peito que ignorei, acreditando ser apenas ansiedade. Eu ignorava o fenômeno obscuro, pois da minha janela, sentia como se pudesse descrever o comportamento das pessoas de forma superior, como se não fizesse parte de tudo aquilo. Via todos como corpos famintos, vagando à procura de algo novo, algo que os nutrisse e distraísse de sua falta de intelecto. Algo que lhes dissesse que aquele vislumbre não era o ponto alto de suas vidas. No entanto, o dia seguiu de maneira contrária às minhas observações, totalmente imprevisível.

O céu estava como descrevera o noticiário:

Tempestades fortes atingirão a região Metropolitana do Recife. A prefeitura anunciou estado de alerta e solicitou que ninguém saísse de sua casa enquanto continuar o perigo.

Uma tempestade forte ameaçava cair. A princípio me pareceu uma chuva forte, mas os curiosos corriam como se aquela nuvem gigante fosse cair sobre nós. Eu, por outro lado, sentei-me na varanda para observar. Sempre que temos chuvas fortes por aqui eu me sento e observo. Observo a situação com olhos de quem nunca teve que se preocupar com uma tempestade; afinal, meu prédio não vai cair tão fácil e, se algo acontecer, o seguro cobre. Os curiosos pareciam temer algo a mais. Eu não entendia o porquê e, para mim, tudo não passava de ignorância.

A chuva começou a cair. De repente percebi uma mulher de preto caminhando como uma louca amedrontada. Por um instante pensei que ela estivesse em perigo, mas não, é só mais uma ignorante que não merece meu tempo.

— O que você quer de mim? — gritou a mulher louca.

— Quero que morra! — retruquei.

Voltei a ignorá-la. E a chuva ficou mais forte, tão forte que eu mal conseguia ver as pessoas lá embaixo. Um aperto no peito começou a se intensificar junto com a força do vento que empurrava as gotas como ondas acinzentadas. Levantei-me com espanto quando senti meus pés molhados. A chuva estava chegando aos poucos na minha varanda, então dei meia volta e me tranquei na sala, pulei no sofá e liguei a TV, ou melhor, tentei ligar a TV. Não tinha energia elétrica. Eu estava no escuro e não percebi.

— Eva! — Gritou uma voz jovem e alta bem na minha porta.

— O que você quer? — Respondi já sabendo que se tratava do idiota do Ivan.

— Eu vim passar a tempestade com você!

Abri.

— Obrigado, quando lembrei que você estava aqui sozinha, acabei correndo pra cá.

— Mas você não ouviu as notícias? Já estava em casa, por que se arriscou?

— Bem… E se você precisasse de ajuda?

— Que tipo de ajuda?

— Sei lá, uma respiração boca-a-boca num afogamento?

— Não seja ridículo.

— Qual é o problema?

— Cala essa boca!

— Eu vi um sorriso aí.

— Para, imbecil.

— Eu sei que no fundo você me ama.

Ele estava certo, mas eu era muito covarde para admitir.

– Então, como anda sua vida solitária?

— Eu espero há cinco anos que você pare de me fazer essa pergunta.

— Eu me preocupo.

Fiquei em silêncio. Aos vinte e cinco anos de idade percebo que não sei me portar nessas situações e é por isso que ele ficou com a Clara. Mas ele ainda fica tentando ser um bom amigo, o que é péssimo pra mim.

— E onde está a Clara?

— Ela foi visitar a mãe há dois dias. Lá ela vai ficar bem.

Começamos a conversar como bons amigos, amigos que não se viam há muito tempo. Alguns minutos depois, e eu já estava vulnerável. Comecei a me assustar com os trovões e, de repente, uma luz forte piscou na casa inteira. Alguns segundos depois o estrondo tirou minha atenção, apesar de esperar pelo barulho o som me surpreendeu. Por um segundo senti uma tontura como se estivesse subindo muito rápido de elevador. Quando retomei o equilíbrio, olhei para o Ivan… Mas o lugar onde ele estava parecia vazio demais, como se nunca tivesse havido ninguém ali. Um calafrio percorreu minha espinha, e um estranho silêncio se instalou ao meu redor. Não era um silêncio comum, pois a chuva continuava a sonorizar o ambiente, mas doía como se tudo estivesse suspenso, como se o mundo tivesse parado de girar. A sensação de estar sozinha me atingiu com força.

Foi então que senti uma inquietação crescente, e um dor incômoda no peito. Precisava sair dali, me mover, encontrar algo que explicasse o que estava acontecendo. Saí pelo corredor do prédio e desci pelas escadas, tentando entender se tudo aquilo era real ou apenas minha mente pregando peças. Olhei em volta e ninguém estava por ali. O porteiro devia ter sido dispensado, mas eu não conseguia ouvir nada além do barulho da chuva. De repente meu peito começou a doer, como se sentisse a dor de estar sozinha, como se o cinza das águas fosse a minha vida. O fluxo da chuva era a vida, e eu uma pedra rígida tentando não ser abalada. De repente me vi vestindo um sobretudo negro. Não me lembro de tê-lo visto antes. O preto da roupa me abraçava em luto, meus olhos estavam… molhados… são gotas de chuva? Olhei ao redor e vi que aquele lugar… onde estou? De repente percebi, lembrei, por que não me recordava? Eu não morava mais em Recife há cinco anos.

Ninguém estava nas ruas, ninguém nas garagens, nas lojas… ninguém nas janelas. A tempestade recolheu as pessoas em casa? Onde está o Ivan? Comecei a caminhar sem controle, não sabia como havia começado nem por quê, mas sabia que eu precisava ir para algum lugar. As ruas eram cinzas, os prédios enormes me engoliam sem motivo. Eu queria uma árvore, algo sob o qual eu pudesse me abrigar da chuva, mas não havia lugar para pessoas. De repente me dei conta de que o Ivan nunca saiu de Recife, o que ele estava fazendo no meu apartamento? Era como se eu tivesse vivido uma memória antiga se misturando com minha realidade, mas aquilo fora real pra mim.

Comecei a acreditar que estava enlouquecendo. A chuva era muito pesada, tornando difícil andar. Continuei caminhando, mas não tinha abrigo. O que está acontecendo? De repente, comecei a ouvir barulhos intensos, vozes, pessoas cochichando…

— Ei! Do que estão falando? — Gritei sem enxergar ninguém. — Alguém está me ouvindo? — Minha voz parecia longe, muito longe. — Ivan! Alguém me ajuda!

A cada grito minha voz ficava mais distante, meus olhos começaram a fechar involuntariamente, tentei mantê-los abertos. Em um instante consegui retomar as forças e comecei a correr. As vozes começaram a aumentar. Algo me chamou a atenção olhei para a direita e vi um prédio residencial. Como assim? Não chove naquele lugar? Na sacada do terceiro andar, uma mulher me observava como se estivesse brincando comigo, como se fosse superior a mim.

— O que você quer de mim? — gritei para ela!

— Quero que morra!

Morrer? Eu? Mas eu… eu ainda tenho que… viver…

De repente a chuva consumiu o prédio e pude ver a silhueta da mulher ir embora. Um sentimento pesado me consumiu, uma culpa maior do que a solidão. Era eu? Corri. O caminho foi perdendo a cor e, quando comecei a ofegar exausta, vi que a chuva diminuíra em gotas finas e tristes. A água em meu rosto tinha um gosto salgado.

Eu vi pessoas. Várias pessoas circundavam um lugar, no meio da rua. Mas elas não estavam olhando para as nuvens negras no céu. Por que não estão molhadas? Como isso é possível? Aproximei-me. Notei que havia algo no chão. A visão cinzenta começou a cintilar um vermelho brilhante.

— Não é aquela moça rica da TV?

— É sim, menina!

— Que trágico.

— Do que estão falando? — indaguei tentando passar pela multidão.

— Ela morava sozinha.

— Não tinha família?

— Vi numa entrevista que ela dizia que família era pra ignorantes. Acho que isso deve ser coisa de rico, o dinheiro pode comprar tudo, né?

Meus olhos voltaram a falhar. Um sono pesado tentava tomar o controle. Consegui passar pela multidão cambaleando. Olhei para o chão e eu estava lá. Paramédicos tentavam me reanimar até que um deles levantou o rosto em minha direção e balançou a cabeça. De repente senti um calafrio, e um homem de terno me transpassou como se eu fosse feita de fumaça.

— Você é parente dela?

— Não, nos conhecemos no trabalho.

— Conhece algum parente?

— Não… acho que ela não mantinha contato com ninguém da família.

— Algum amigo próximo?

— Ela era mais reservada e só pensava no trabalho.

— Então, pode nos acompanhar?

— Oh, Deus! Sim, tudo bem.

— Tudo bem mesmo?

— Tudo bem, tínhamos uma reunião importante para a companhia hoje, mas acho que posso adiar dado as circunstâncias.

— Então vamos.

— Mas, sabe dizer se ela vai ficar bem?

— Não entendeu, cara? Ela está morta.

– Causa da morte? — perguntou o homem de terno, ainda processando a situação.

– Ataque cardíaco. O estresse da situação e o isolamento podem ter contribuído. Ela deve ter ignorado os sinais.

O homem em questão girou o corpo rápido, dando as costas para o paramédico. Abaixou a cabeça bem na minha frente, levou as mãos aos olhos e… sorriu. E então percebi que a chuva, com seu gosto salgado, não molhava aquelas pessoas, porque só o céu se importava.