Como surgiu a duologia "O Andarilho Clemente"?

CHBLACKSMITH


A duologia O Andarilho Clemente nasceu em um dos momentos mais difíceis da minha vida. E talvez por isso ela seja tão honesta. A história gira em torno de Edgar, um jovem introvertido, fechado, com dificuldades reais de se conectar com outras pessoas. Ele não é um herói clássico, tampouco um personagem idealizado. Edgar é humano, com todos os ruídos, hesitações e silêncios que acompanham quem vive no limite entre o isolamento e o desejo de ser compreendido.

A trajetória de Edgar começa a se transformar quando ele conhece Sara, uma jovem que aparece quase como um sopro de esperança. A relação entre os dois se inicia de forma rápida, impulsiva e intensa — um reflexo das carências e urgências que os dois carregam. É um relacionamento bonito, mas frágil. Intenso, mas instável. Assim como muitos de nós já vivemos, ou ainda vamos viver.

Mas o ponto mais importante dessa obra não é a história em si, mas o que ela representa. Ela não nasceu de um planejamento meticuloso ou de uma ideia construída racionalmente. Ela nasceu da dor. A primeira fagulha surgiu em forma de poema, escrito em uma noite qualquer — não me lembro exatamente o ano, mas desconfio que tenha sido por volta de 2012. Eu estava em um estado depressivo, tentando sobreviver aos meus próprios pensamentos, e escrevi como uma forma de manter a cabeça acima da água.

O poema era cru, amador, mas tinha algo que nem sempre conseguimos colocar em palavras: verdade. Ele falava sobre minhas inseguranças, meus medos, e sobre a solidão que me envolvia como um cobertor úmido em pleno inverno. Foi ali que Edgar nasceu, mesmo que ainda sem nome. Ele era eu, de certa forma — ou pelo menos, era a parte de mim que eu não conseguia externalizar de outro modo.

Com o passar dos anos, fui relendo aquele poema. Cada vez que voltava a ele, encontrava novos significados. Era como se minhas dores tivessem se cristalizado ali, e toda vez que tocava o texto, eu me conectava com uma versão antiga de mim mesmo. Mas eu mudei. E ao me entender melhor, ao me perdoar por tanta coisa que eu não soube lidar, senti que precisava transformar aquele desabafo em algo maior. Algo que pudesse não só me aliviar, mas talvez tocar outras pessoas também.

Foi então que nasceu O Andarilho Clemente. O poema virou prólogo. As emoções viraram cenas. As memórias viraram diálogos. Eu dei voz aos meus fantasmas, e descobri que eles tinham muito a dizer.

A profundidade dessa duologia está justamente nesse ponto: ela não tenta ser complexa por pretensão, mas sim porque a vida é, por si só, um emaranhado de camadas difíceis de entender. Escrevê-la foi como cavar com as mãos nuas dentro do meu próprio peito. Cada capítulo era uma confissão. Cada personagem, uma extensão das minhas falhas e aprendizados.

Sara, por exemplo, não é uma musa idealizada. Ela tem suas próprias dores, suas próprias contradições. A relação dela com Edgar não é uma salvação romântica, mas sim o retrato de dois seres humanos tentando se encontrar no meio da bagunça que são. Eles se ajudam, se machucam, se curam — ou tentam. E talvez não seja isso que a gente vive, dia após dia?

Muita gente me pergunta por que escrevi essa história em dois livros, e a resposta é simples: não cabia tudo em um só. Não apenas em termos de enredo, mas em termos de emoção. Eu precisei de duas obras para conseguir fechar o ciclo, para colocar tudo que precisava ser dito. O primeiro livro é mais contido, mais focado no impacto inicial da conexão. Já o segundo expande o universo emocional dos personagens, aprofunda suas dores, e traz uma tentativa de redenção — que nem sempre vem da forma como esperamos.

Escrever essa duologia foi, sem dúvida, uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Não por ter virado um projeto literário, mas por ter me dado a chance de me compreender melhor. De olhar para dentro sem desviar o olhar. E, mais importante ainda, de transformar essa dor em algo criativo, algo que pudesse, talvez, fazer companhia a quem também se sente sozinho por dentro.

Hoje, quando releio O Andarilho Clemente, já não sinto o mesmo peso de antes. Sinto gratidão. Por ter sobrevivido. Por ter escrito. Por ter dado vida a Edgar e Júlia, e por eles terem me ajudado a entender quem eu sou.

Essa história é, antes de tudo, um lembrete: mesmo quando tudo parece desmoronar, há beleza no ato de continuar. Mesmo que cambaleando. Mesmo que sozinho. Mesmo que apenas com palavras rabiscadas num caderno velho, numa madrugada em silêncio.

Se você, leitor, também carrega pesos que não consegue nomear, talvez encontre um pouco de si nas páginas dessa história. E se isso acontecer,

Já valeu a pena.