O Andarilho Clemente - Capítulo 1

CHBLACKSMITH


Capítulo 1 — Simetria

As luzes na rua iluminavam pouco e em alguns pontos estratégicos. Um padrão notório de postes posicionados a distâncias iguais uns dos outros. Os círculos de luz que se formavam embaixo de cada poste criavam uma ordem simétrica por entre a escuridão, e a imaginação de Edgar podia captar aquilo e interpretar como algo único marcando aquela noite quente. Para contemplar essa visão diferente, Edgar decidiu seguir em uma caminhada lenta no centro da rua. Ele olhava atentamente para o fim, semicerrando os olhos para desfocar propositalmente as luzes dos postes ao redor. Logo se viu distante, de modo que seus passos já não eram mais perceptíveis, e o pensamento estava de volta há algumas horas antes, quando ele ainda estava na presença de pessoas. Pessoas normais, barulhentas e, para Edgar, irritantes.

Ele entrou lentamente no bar, segurando a porta de madeira e tentando não fazer barulho em meio as conversas e gargalhadas que soavam como poluição junto a uma música mal trabalhada. Em passos longos, foi até uma mesa mais reservada onde podia se sentir mais tranquilo e observar as pessoas sem que fosse percebido.

– O que vai querer, senhor? — Perguntou o garçom sem uniforme com uma caderneta na mão e um lápis com a ponta arredondada.

– Pode ser isso aqui — Disse Edgar, apontando para uma opção no cardápio que tinha escolhido aleatoriamente. Ele não costumava escolher muitas coisas; preferia que algo ou alguém fizesse esse favor. Naquela noite, sua saída de casa tinha sido algo novo, um sentimento de solidão estranho o fez escolher aquele bar sem nenhum motivo mais concreto. — E me traga um refrigerante qualquer.

– Mais alguma coisa, senhor?

– Não, muito obrigado.

Um homem com uma personalidade única, gentil e amigável, que se importa com todos os que o circundam, que não se incomoda em ajudar. Esse homem não é o Edgar. Na realidade, essa personalidade permanece submersa em uma massa enorme e escura de experiências ruins que moldaram o seu novo jeito defensivo. O Edgar atual nem daria um bom dia para não demostrar fraqueza, não se importaria em ser grosseiro e muito menos perderia o seu tempo ajudando as pessoas que “não mereciam”.

Era fim de semana. Um solitário fim de semana, longe do trabalho, longe dos colegas, longe do barulho. Era tudo o que ele precisava: ficar só, sentir-se livre em pensamentos e se aprofundar na leitura. Nada era mais prazeroso para Edgar do que uma boa leitura. Nada era melhor do que sentir a solidão, respirar e ouvir seus suspiros. Possuía o dia inteiro para desfrutar do silêncio, mas quando o céu escureceu, uma sensação estranha o havia consumido. Seus pensamentos estavam cansados de não compartilhar com alguém aquele conhecimento adquirido; as histórias lidas e sentidas não enchiam mais a sua mente, porque ele precisava do debate. Por poucas vezes isso aconteceu, e ele resolveu sair um pouco e observar as pessoas em seus círculos de amizades.

Observar pessoas era algo que ele podia fazer para analisar as possibilidades de exposição. A verdade é que ele precisava de alguém para conversar, que não estivesse preso em processos sociais dominadores, de alguém que o ouvisse, que fosse contra, mas que o ouvisse. Embora essa realidade fosse um pouco distante em sua mente, aquela noite seria uma tentativa.

Sentado ao bar, Edgar olhava para todos em busca de um conforto em alguma atitude mais clara de alegria ou companheirismo. Queria saber se seus julgamentos generalizados sobre o mundo poderiam estar errados.

Há alguns metros de distância, um homem vestido com um terno acinzentado se sentava em um banco de madeira em frente ao balcão. Seu rosto sorridente revelava o motivo de sua entrada àquele bar, pura diversão. Ele possuía um jeito elegante, seus cabelos castanhos e curtos estavam bem penteados, o terno perfeitamente passado e bem encaixado a seu corpo atlético aparente. Seu olhar era desafiante e procurava uma presa fácil para atacar e jogar sua prepotência sobre qualquer conversa. O homem olhou para Edgar e o notou só, no canto do bar. Caminhou até ele e indagou:

– O que faz aí sozinho, amigão?

– Passando o tempo. — Respondeu Edgar, tentando não ser rude.

– Não é assim que se faz, cara! — O homem insistiu, puxou uma cadeira na frente de Edgar e continuou — Eu me chamo Gilberto ou, se você preferir, pode usar qualquer elogio.

Edgar, em silêncio, apertou a mão de Gilberto com insatisfação.

– Caras jovens como nós, precisam estar prontos para a caçada.

Edgar não sabia como responder e ainda se sentia desconfortável ao ter que conversar com um estranho sobre um assunto que não lhe interessava.

– Eu só estou tentando comer alguma coisa.

– Entendi, entendi. Acabou de ser chutado por alguma mulher e está se afogando aqui… acredite, eu posso mudar seu humor bem rápido.

Edgar não hesitou em ignorá-lo. — Aposto que concorda comigo! — Gilberto agora dava gargalhadas e batia no ombro de Edgar.

Edgar acabara de notar que sua noite seria longa e cansativa uma péssima escolha.


Sara reparava na beleza das luzes dos postes e criava uma sensação feliz e intrigante ao notar a simetria que vivia naquela rua comprida. Ela sentiu a necessidade de sair de perto dos muros de sua nova casa e vislumbrar outras luzes. Andou por entre as ruas paralelas e descobriu simetria. Seguiu até uma esquina e praticou sua louca mania: Sara olhava atentamente para o final de cada rua e semicerrava os olhos a fim de enxergar o caminho e desfocar as luzes ao lado. A sensação era esquisita, mas era boa. Ela tinha a impressão de que seus sonhos estavam logo ali, no final daquele caminho. Seguiu mais um pouco e parou em uma placa escrito “Rua Fonseca”. Olhou para o final dela, desta vez existiam luzes se movimentando no final do túnel levemente iluminado e simétrico.

Sua noite estava um pouco estranha, mas feliz. Ela queria encontrar alguma algo, alguém, respostas. Não sabia o quê. Usou de toda a curiosidade para seguir até o brilho desconhecido. Sara não conhecia aquele lugar, pois acabara de se mudar com sua família, queria descobrir alguma razão para gostar daquele lugar — talvez. Um jeito estranho de viver, mas ela conseguia seguir sua intuição como ninguém.

Bar da Esperança. Pequeninas lâmpadas violetas piscavam nas palavras impressas em um banner amarelado suspenso por hastes de metal nas laterais.

– O que eu faço agora? — Pensou Sara em voz alta. Rapidamente se decidiu e entrou para observar o lugar novo.


O “novo amigo” de Edgar era um “pegador”. Ele dizia que visitava o bar com frequência em busca de uma noite de sexo. Admirar essa atitude, para Edgar, era algo impossível. Ele tinha medo de pensar daquela forma, evitava olhar para as mulheres presentes para não pensarem que ele estava em busca de sexo. Até que a porta do bar se abriu.

O movimento da porta teve uma reação magnética sobre Edgar. Seu corpo girou e em sua mente surgia uma única questão, a de saber quem estava entrando. Seus olhos pareceram fixar de um jeito irreparável, um piscar seria um desperdício de um segundo.

Quem é ela? O que faz aqui?

As palavras rodaram a mente de Edgar, mas ao mesmo tempo ele projetava aquela visão em um campo limpo de observação. Os cabelos longos e negros se escondiam atrás da orelha, revelando um rosto feminino perfeito, para Edgar. Ela retribuiu o olhar. Enrubescido, Edgar reparava naquele rosto, no castanho escuro dos olhos, nas maçãs do rosto que faziam um desenho arredondado se combinar ao afilado nariz rosado. Ele se emocionou, e os suspiros que se obrigou a segurar formaram possibilidades de diálogos em sua cabeça, mas algo tinha que dar errado. O encanto fora quebrado por um corpo grande e atlético aparecendo na frente de Edgar, quase que instantaneamente.

– Veja, e aprenda. — Disse Gilberto ao girar o corpo em direção a jovem e seguir andando com sua elegância falseta.

Edgar, por algum motivo sentiu raiva. A jovem parecia calma, e tão perdida e solitária quanto ele. Não merecia aquele tipo de atitude, — devo intervir? — Pensou.

Durante sua curta vida, ele provou da arrogância do mundo e foi moldado a um ser escondido que tinha enormes pretensões sobre o futuro, mas sentia-se desanimado a continuar e sonhar. Em dias comuns, o seu ideal era ignorar os acontecimentos que julgava errados. Mesmo com suas experiências ruins ele ainda pensava como antes, e às vezes agia por impulso.

– O que uma princesa como você faz aqui à essa hora? — Gilberto segurou na mão da jovem e a olhou com segundas intenções.

– Não lhe interessa! — Ela falou um pouco alto enquanto puxava seu braço com força.

– Mas que belezinha brava — Gilberto agora tentava se aproximar mais e forçar algum tipo de contato.

Ao segurar a mão direita da Jovem mais uma vez, Gilberto foi surpreendido por uma forte mão se esparramando em seu peito o puxando para trás.

– Largue ela, respeite a moça, ela não está aqui por sua causa. — Disse Edgar enquanto olhava ferozmente para Gilberto.

Gilberto estava completamente surpreso e sem dizer uma palavra seguiu com movimentos bruscos para fora do bar batendo a porta ao sair. Alguma lembrança o fez fugir do olhar raivoso de Edgar.

– Você está bem? — Perguntou Edgar se dirigindo a moça que demostrava espanto.

– Está tudo bem, obrigada!

Ela seguiu sem dizer mais nada para uma mesa ao lado da que Edgar estava sentado e se acomodou abrindo o cardápio um pouco envergonhada. A atenção das pessoas no bar foi voltando a seus pratos devagar. Edgar voltou ao seu assento e notou que seu jantar chegara em meio à confusão, abriu o refrigerante, colocou dois canudos e começou a sugar aquele líquido gelado em pequenos goles enquanto pensava no ocorrido. Notou com um olhar meio triste que pedira uma sopa simples de legumes que no cardápio parecia algo diferente, não quis ler as letrinhas pequenas abaixo do título.

Essas situações para Edgar eram normais, ele já presenciou muitos e muitos momentos como aquele em que o homem se mostrava um completo idiota e as mulheres completamente prontas a receber aquele tipo de ataque e ainda retribuir com gosto as insinuações. Mas naquela noite, a mulher que estava sendo paquerada tinha algo especial, algo puro, alguma coisa diferente, ele não conseguiu se conter e partiu para a defesa. Sua cabeça girava incontrolavelmente para o lado direito aonde a moça ainda escolhia o cardápio. Seus movimentos estavam sem controle. Edgar se afogou na sopa a sua frente e tentou esquecê-la com o calor dos legumes em sua garganta.

– Você bem que poderia me ajudar a escolher isso. — Uma voz suave penetrava seus ouvidos bem de perto.

A sopa pareceu pesada e o caldo pareceu áspero. Ele se engasgou por um instante e olhou para frente com um certo receio.

– Eu? — Indagou enquanto se recuperava do engasgo.

– Claro, você foi tão gentil a pouco que eu acho que posso me sentar aqui, certo? — Sentada a moça o olhava enxugar as gotas de caldo quente dos lábios com guardanapos. — Qual o seu nome?

– Edgar!

– Eu me chamo Sara, prazer em conhecê-lo! — Sara agora estendia a mão.

– O prazer é todo meu!

– Tudo bem então, Edgar, pode me ajudar a escolher?

Nada poderia ser pior para ele do que escolher alguma coisa assim, sem pensar, sem ter que experimentar antes, ele costumava ser muito metódico.

– Tem certeza disso? Não acho que sou o cara ideal para esse tipo de coisa.

– E nem ache que eu sou capaz de escolher algo bom, prefiro que alguém escolha por mim. — Edgar não podia ouvir aquelas palavras sem dar uma bela risada, Sara acabara de repetir sua expressão de sempre.

– Ok! Depois não reclame.

Com as mãos no cardápio ele lia atentamente as opções e pensava no que estava fazendo…

– Peça esse Nhoque de batata e vamos ver o que acontece.

– Ótimo, nunca experimentei, mas parece ser ótimo. Obrigado Sr. Edgar, vou me lembrar de sua gentileza. — Ela seguiu para a mesa ao lado e deixou Edgar um pouco triste.

“Por que estou me importando com isso?”.

Depois de acreditar que teria uma companhia agradável para aquele jantar tedioso, ela se foi para a mesa ao lado. Ele nunca teria a coragem de reivindicar uma companhia, muito menos de conversar sobre qualquer coisa. Sara era diferente e seus pensamentos estavam confusos, mas estranhamente felizes. Até que, com um impulso que ele não conseguiu explicar, levantou-se de sua cadeira segurando o prato de sopa com uma das mãos e o refrigerante em outra.

– Posso me sentar aqui?

– Achei que eu estava atrapalhando a sua sopa. — Sara assentiu com um sorriso lindo e enrubescido.

– Se não quiser que eu fique posso ir embora, sem problemas. — Não! Fique, me ajude a provar a comida que você escolheu. — Já disse que sou péssimo com isso. — E eu mais ainda.

– Ok, vamos com calma, o indeciso sou eu e antes de você chegar.

– Ok, vamos com calma, quem escolheu essa sopa pálida? — Sara sorriu e apontou para o prato de Edgar e acusou o mal gosto com uma careta de deboche.

– Isso significa que eu não sou bom escolhendo, mas você insistiu.

– Vamos fazer assim, você pede ao garçom que leve essa sopa sem gosto e eu escolho o seu prato, assim estaremos correndo o mesmo risco.

– Vou aceitar!

Edgar chamou o garçom com uma alegria que não estava notando. O garçom chegou e novamente pôs a caneta para funcionar anotando os pedidos dos dois sorridentes jovens que compartilhavam alguma alegria edificante. Ao chegar no bar, Edgar estava completamente mal-humorado e não podia sorrir nem que por um segundo, impossível não notar.

– Felicidades, doutor! — Disse o garçom batendo no ombro de Edgar, notando claramente a mudança.

E a conversa começou, as apresentações foram longas, o sentimento que circulava era puro, sem nada o que relacionar a maldades ou pensamentos de luxúria. A noite de Edgar realmente estava sendo longa, mas diferente do início, ele sorria alegremente de um jeito que não lembrava de ter feito antes.

– Acho que a minha escolha superou as expectativas. — Revelou Edgar ao observar a satisfação de Sara ao dar a última garfada no nhoque escolhido por ele.

– Não vejo por que não me dar esse mérito, já que eu que o forcei a escolher. Sem contar que você devorou o seu prato primeiro, isso significa que o seu estava mais gostoso. Ganhei de todas as formas!

As gargalhadas eram tantas que o tempo parecia parado. A conversa seguia inteligentemente para todos os argumentos guardados por Edgar sobre o tempo, a vida, o mundo. Sara rebatia com seus pensamentos e os dois concordavam em mudar de ideia. Aquilo poderia durar dias.

– Minha nossa! — Gritou Sara — Olhe só para a hora, preciso ir, estamos aqui a muito tempo, a madrugada não é tão longa assim.

Sara levantou da cadeira e começou a se espreguiçar em homenagem as horas que passara sentada ali. Edgar reparou em seu corpo, uma coisa que não gostava de fazer, mas aquela noite ele estava fora de si. Olhou para aquele corpo como se nunca tivesse notado nada assim antes, e sentiu um frio na barriga.

– Não vai me acompanhar até em casa, moço galante? — Sara brincou com um dos papos que tiveram sobre o comportamento de pessoas nos tempos mais antigos.

Edgar não sabia se deveria acompanhá-la, estava nervoso demais para se oferecer, ele tinha uma mania de acreditar que estava atrapalhando as pessoas com suas escolhas, e por isso não costumava se expor tanto.

– Claro, vamos!


Andando pelas ruas eles sentiam algo novo, uma alegria diferente, um vazio preenchido, uma noite muito bem aproveitada. O frio do vento nas ruas não tinha efeito sobre Edgar que ainda estava completamente coberto por esse calor estranho que sentia internamente, essa alegria.

Seguiram em silêncio, às três da manhã. Edgar não sabia onde teria que levá-la, mas não estava preocupado, a presença de sua mais nova amiga já parecia necessária.

Andaram mais umas ruas olhando para o chão, ainda em silêncio. Sara parou em uma esquina e virou-se para Edgar lentamente.

– Acho que é melhor você me deixar aqui, moro logo no final dessa rua, acabei de me mudar e não conheço os vizinhos. Não sei se seria interessante me verem às três da manhã com um homem tão bonito assim.

– Uau! Obrigado pelo elogio, mas eu entendo sua posição e também agradeço pela companhia.

– Sabe? Tenho uma mania meio louca, nunca contei a ninguém, mas queria que você ouvisse, você parece me entender.

– Pode contar, estou pronto! — Edgar se perdia naqueles olhos castanhos e tentava não demostrar, mas era inevitável, viciante.

Sara andou até o meio da rua, e apontou para o final:

– Tenho o costume de olhar para o final da rua só para observar a simetria das luzes dos postes ao lado. Sinto algo diferente, como se meus sonhos estivessem um pouco distantes, mas fossem possíveis de alcançar. Às vezes penso que essa sensação estranha é o que chamam de esperança. O que você acha?

– Ainda não experimentei para saber, mas o significado da esperança parece ser algo possível de sentir.

– É… penso assim. Enfim, tchau.

– Tchau! — Edgar acenou para ela simbolizando a despedida e a viu seguir pelo meio da rua em linha reta.

As luzes na rua iluminavam pouco e em alguns pontos estratégicos. Um padrão notório de postes posicionados a distâncias iguais uns dos outros. Os círculos de luz que se formavam embaixo de cada poste, criavam uma ordem simétrica por entre a escuridão e a imaginação de Edgar podia captar aquilo e interpretar como algo único para marcar aquela noite quente. Para contemplar aquela visão diferente, Edgar decidiu seguir em uma caminhada lenta no centro da rua. Ele olhava atentamente para o fim semicerrando os olhos para desfocar propositalmente as luzes dos postes ao redor. Logo se viu distante de modo que seus passos já não eram mais perceptíveis. Ele reparava na silhueta feminina que sumia lentamente de sua visão e entendeu que seus sonhos estavam bem próximos, sua esperança havia retornado.

Capítulo 2 — O Acaso