O laço vermelho de camurça

CHBLACKSMITH


O alarme toca e ele não desperta: emerge. Como quem sobe de um mergulho longo, trazendo nos ouvidos o zumbido de um mar inventado. A mão encontrada antes do olho: desliza pelo criado-mudo, acha a tela, silencia. A casa ainda está de bruços quando ele escorrega os pés para fora da cama. O chão está frio.

No banheiro, o espelho devolve um rosto cansado. A água cai, e com ela o resto da noite. Ele ensaboa os ombros com a delicadeza de quem enrola um curativo invisível. Não pensa, não precisa. O vapor apaga os detalhes da parede; é mapa de nenhum lugar. Sai, escova os dentes, língua, tudo limpo.

Na cozinha, mistura os ovos, um pouco de sal e manteiga na frigideira. Gestos memorizados, cada barulho uma batida de metrônomo. Pão na torradeira, manteiga amolecendo, a janela emoldura uma rua que ainda se alonga, bocejando. O celular vibra: mensagens empilhadas, fotos de um grupo de família, um vídeo curto de um cachorro que dança, uma atualização qualquer sobre algo importante demais para se entender às oito da manhã. Ele rola a tela até o nada, sorri de leve para o nada, guarda o aparelho junto com o resto do barulho.

Bate leve na porta do quarto das crianças.

— Bom dia, capitães — diz, e as cobertas se mexem como mares, as cabeças emergem em espuma de cabelo. Um reclama do frio, o outro pergunta do tempo. Ele calça meias em pés pequenos, acha uma camiseta que “coça menos”, prende um cabelo com um elástico que sempre some quando precisa. Pão, leite, mochila, caderno, beijo na testa. A casa desperta inteira, como se o sol finalmente tivesse sido convocado por um ritual simples.

No carro, o rádio murmura uma notícia sobre algo que fica sempre longe demais para tocar. O do meio aponta um ônibus e inventa uma história para o motorista; a mais velha calcula, do banco detrás, quanto tempo falta para as férias, a mais nova sorri para os dois e se mantém feliz. Eles descem na escola, o portão engole suas risadas e as devolve em ecos. Ele fica parado um segundo, mão na marcha, sem pensar em nada, como se respirar fosse um trabalho. A esposa suspira.

No caminho de volta, o mundo parece ter sido reescrito com letra pequena. Há um homem parado na calçada, tentando convencer um guarda-chuva a existir; uma mulher atravessa a rua falando sozinha, mas a verdade é que o fone invisível é um truque de segredos; uma adolescente pratica passos de dança no reflexo de uma vitrine fechada; um cachorro dorme dentro de uma sombra que lhe cabe com exatidão. Ele assiste a tudo com a calma de quem tropeça num teatro aberto — e a rua vira palco, e cada gesto é um ensaio, e as pessoas se alinham sem saber, obedecendo a marcações que ninguém escreveu.

Um ônibus freia, e por um segundo, o suspiro coletivo de passageiros tem a mesma nota. Ele imagina a mulher do banco da janela recebendo uma mensagem que muda o dia; imagina o rapaz de boné descendo um ponto antes de propósito, para não encontrar alguém que disse que viria; imagina o homem do guarda-chuva finalmente convencido a fechar o céu com as mãos. A mente arma uma peça inteira no tempo de um semáforo.

No semáforo, ele lembra de uma conversa que não teve com um desconhecido no supermercado: “a senhora também escolhe as frutas assim?”, “eu escolho pelo peso”, “então eu preciso aprender urgentemente”. Eles riem; não riem. O ensaio se desfaz quando o verde chega. Ele dirige com as nuvens por companhia. Elas andam rápido por dentro.

Ao chegar em casa, a porta abre com o estalo de sempre. O corredor conhece os passos; as paredes guardam o jeito de encostar dos cotovelos; a mesa da sala tem marcas de copo que desenham constelações ordinárias. Ele atravessa a casa do mesmo modo que as manhãs atravessam as horas: sem traço de pressa. Passa pelo sofá onde uma manta se estende para a esposa repousar. Desliga o rádio. A casa fica com um silêncio de biblioteca.

Na mesa, repousa o caderno.

Capa vermelha de camurça, a textura que pede dedo, como um bicho manso. Um laço de camurça envolve a capa, vermelho também, um pouco mais gasto nas pontas. Ao lado, uma caneta que não é cara, mas que aprendeu o contorno exato de sua mão. Ele fica de pé por um instante, olhando. Se alguém visse, diria que encara um presente. Ou um cofre. Ou uma ferida que se mantém limpa.

Ele desfaz o laço com um gesto quase cerimonioso. A fita cede com um som curto, concordando. A capa abre. O primeiro cheiro é uma lembrança, pêssego. Há páginas com palavras que se entendem entre si, outras com rabiscos que não lembram língua nenhuma. Ele toca o canto de uma folha, como se cumprimentasse alguém num corredor estreito.

Senta.

A caneta pesa pouco; o mundo, menos. Ele apoia a ponta no papel e não escreve ainda. Espera a primeira pequena falha do corpo, um suspiro, um ajuste de ombro, um piscar mais longo — para tentar a passagem. E então ela acontece: sem trombeta, sem anúncio. A mão começa.

A casa não desaparece; cede. A mesa vira cais, o papel vira mar, a caneta vira barco. A primeira frase não tem a ver com nada: “Ele acordou antes do sol porque alguém o chamou pelo nome do lado de dentro.” A segunda encontra a primeira como quem encontra cadeira vazia no fim de uma fila. A terceira já tem a altura certa.

E então, ele não é mais um.

É um homem que carrega um guarda-chuva fechado debaixo de um céu sem nuvens, porque aprendeu cedo que previsão é superstição de quem já sofreu. Ele anda contando rachaduras de calçada até perder as contas e respirar aliviado. Tem medo de promessas, mas coleciona horários.

É uma mulher que fala sozinha enquanto atravessa a rua, e ninguém sabe que a conversa inteira é com alguém que não volta. Ela ensaia respostas que nunca dirá, e mesmo assim melhora de humor ao final — como quem devolve um livro à estante.

É a adolescente que dança no reflexo: erra o passo sete vezes para acertar o oitavo e sorrir só com os olhos, porque a boca ainda não a obedece de manhã. Ela tem um objetivo simples: acertar a coreografia antes que a loja abra para o mundo.

É um rapaz de boné que desce um ponto antes porque não quer ser visto triste. Ele decide dar a volta no quarteirão para consertar a cara antes de consertar a vida. Carrega no bolso uma carta que não será entregue.

É também nenhum deles e todos ao mesmo tempo: alguém que empilha pequenos segredos para que o dia não desmonte. Cada um com medo próprio, com insegurança que muda de nome conforme a esquina, com objetivo que não cabe em slogan — pagar uma conta, dançar de novo, aguentar mais uma hora, tentar pedir desculpa, aprender a perder.

Ele viaja por esses lugares que não existem em mapa e, ainda assim, cada esquina reconhece seus passos. Ele anota: não com o zelo de quem catalogaria, mas com a pressa calma de quem salva um peixe que se debate fora d’água. Entre uma frase e outra, o silêncio. Entre um personagem e outro, a respiração do mesmo corpo.

A caneta arranha o papel com sonoridade de chuva. O laço vermelho de camurça se enrosca no punho. Ele escreve até onde o corpo aceita. Para quando a mão pede, não quando o relógio manda. Relembra, por um segundo, que alguém precisa buscar as crianças mais tarde, que há uma conta a pagar, que a frigideira ficou com resto de ovos. Os pensamentos práticos batem à porta como vizinhos gentis. Ele acena de longe. Escreve mais uma linha.

No fim de algumas páginas, a caneta descansa.

A casa recupera a nitidez. O caderno respira sob a palma. Ele fecha com cuidado, refaz o laço, não por superstição, mas por gratidão. Fica em silêncio um tempo que não mede. Admira seu espaço. Talvez alguém lhe perguntasse, se estivesse ali, o que é que ele ficou fazendo desde cedo. Ele diria que foi começar o dia.

E, de algum modo, teria razão.

Porque só então a cabeça desce das nuvens, as pessoas param de ensaiar na rua e a peça, satisfeita, encerra a sessão da manhã. Ele se levanta com o corpo arrumado. Lava a caneca. Abre a janela. A rua continua escrevendo sozinha.

Na mesa, o caderno vermelho espera, de novo, o próximo laço.